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22 de Outubro de 2017

Como proceder ao ser vítima de uma ofensa pela Internet

Igor Lucas, Advogado
Publicado por Igor Lucas
há 6 meses

Como proceder ao ser vtima de uma ofensa pela Internet

As ofensas não são exclusividades da sociedade atual, porém, com a evolução da Internet, este tipo de crime tem uma lesividade bem maior quando realizada através deste meio, em virtude do alcance que o conteúdo postado na rede tem, além do falso sentimento de anonimato e impunidade do ato praticado através de um dispositivo eletrônico. Uma ofensa pode ser tipificada de várias formas pelo Código Penal, entre elas:

  • Calúnia (art. 138, CP) ao imputar, falsamente, a alguém fato definido como crime;
  • Difamação (art. 139, CP) ao imputar a alguém fato ofensivo à sua reputação;
  • Injúria (art. 140, CP) ao ofender a dignidade ou o decoro de alguém;
  • Ameaça (art. 147, CP) ao ameaçar alguém de causar-lhe mal injusto e grave.

Estes são crimes digitais impróprios, ou seja, aqueles que ocorrem tanto “virtualmente”, através da Internet, ou “fisicamente” em outros meios, por exemplo oralmente ou de forma escrita. São impróprios pois a tecnologia é apenas meio de disseminação da atividade delitiva. Diferentemente dos crimes digitais próprios, onde os dados, as informações, e os sistemas de tecnologia da informação são o objeto da atividade criminosa, como, por exemplo, a invasão de dispositivo informático (art. 154-A CP).

Apesar de ser diferente apenas quanto ao meio em que se propaga, o procedimento para obter a devida reparação em face de uma ofensa pela Internet, em regra, é completamente diferente, em virtude justamente destes rastros deixados no meio digital. Ao ser vítima de um destes crimes, a pessoa deve tomar, preferencialmente, as seguintes medidas:

1) Registrar o fato imediatamente

Inicialmente, deve a vítima realizar o print de todas as mensagens, conversas, posts, toda e qualquer informação que possa indicar a autoria e a materialidade delitiva. Recomenda-se também anotar as URLs que apontam para estas páginas, pois futuramente podem ser necessárias para um pedido de remoção de conteúdo, como definido pelo Marco Civil da Internet (art. 19, § 1º) ao requerer a “identificação clara e específica do conteúdo”.

2) Realizar uma ata notarial

Apesar do Código de Processo Penal prever que “o juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial” (art. 155), a colheita mal feita de uma prova pode levar à sua nulidade, e consequentemente a inviabilidade de demonstrar a autoria e a materialidade delitiva. Portanto, é recomendável ir a um cartório de notas, e requisitar ao tabelião o registro dos elementos colhidos no item anterior em forma de uma ata notarial, revestida de fé pública.

A ata notarial tem sua previsão expressa na Lei Federal 8.935/1994, que determina no inciso III, do art. , a exclusividade da competência ao tabeliães em uma lavrar ata notarial, que é “um instrumento público através do qual o tabelião relata, de forma absolutamente objetiva, aquilo que vê e ouve”[1].

O tabelião irá acessar o material requisitado pela vítima, e fará uma transcrição do seu conteúdo, sem julgamento de mérito, apenas dando fé que estas informações ali estavam presentes.

Porém, este ato tem um custo, que em muitos casos podem inviabilizar sua produção, especialmente se o conteúdo das ofensas for muito extenso. Cada estado da federação determina sua tabela de custas. À título exemplificativo, nos cartórios do Rio de Janeiro, uma ata notarial de uma página irá custar, em 2017, R$ 301,92[2]. No estado de São Paulo, a mesma ata de uma página custará R$ 416,81[3], e em Minas Gerais, R$ 122,66[4].

Uma alternativa ao alto custo da ata notarial é fazer uso da prova testemunhal. Apesar de ser conhecida no âmbito criminal como a “prostituta das provas”, a prova testemunhal não deixa de ser válida, e como dito acima, o juiz formará seu convencimento pela livre apreciação da prova. Idealmente a testemunha não deve ser amigo ou parente da vítima, ou outra pessoa que tenha interesse na causa, sob o risco de ser declarada suspeita.

A sugestão neste caso é procurar um advogado, que reunirá duas testemunhas imparciais, e fará um auto de constatação sobre o mesmo material que seria objeto da ata notarial. Ele, diante das testemunhas, irá acessar o material e fazer o registro de seu conteúdo, da mesma forma que seria feito pelo tabelião. Este auto de constatação também terá custo, mas pode ser menor que o custo da ata notarial, ou mesmo ser diluído junto dos honorários já pagos ao patrono da causa.

3) Ir a uma delegacia

De posse deste material, a vítima deve procurar a Delegacia de Polícia Civil mais próxima e registrar o fato através de um boletim de ocorrência. Em alguns estados existem delegacias especializadas em crimes digitais[5], porém todas detém competência para registrar o fato.

Por serem crimes de menor potencial ofensivo, cuja pena máxima não ultrapassa 2 (dois) anos, conforme disposto pelo art. 61 da Lei 9.099/1995, não haverá instauração de inquérito policial, sendo que a autoridade policial apenas lavrará termo circunstanciado que será encaminhado ao Juizado Especial Criminal.

Além disso, a vítima deve estar atenta à decadência do direito de queixa ou de representação, que se dá em 6 (seis) meses contados do dia em que veio a saber quem é o autor do crime, conforme art. 103 CP. Portanto não deve demorar a exercer seu direito.

4) Remoção do conteúdo, responsabilização do provedor de aplicações e logs

Além da responsabilização criminal, a vítima poderá solicitar judicialmente a remoção do conteúdo. De acordo com o Marco Civil da Internet (MCI), a remoção se dá apenas mediante ordem judicial (art. 19, MCI), exceto em casos de conteúdo de natureza sexual (art. 21, MCI).

Conforme dispõe o art. 19 do MCI, não há que se falar em responsabilização do provedor de aplicações, ou seja a rede social, o blog, o site de notícias, etc, pelo conteúdo postado por terceiros, a não ser em caso de descumprimento da ordem judicial de remoção do conteúdo.

Porém, poderá o provedor ser compelido, judicialmente, a exibir registros de conexão ou de registros de acesso a aplicações de internet de modo a “formar conjunto probatório em processo judicial cível ou penal”, como disposto pelo art. 22 do MCI, auxiliando na identificação de autoria do fato.

5) Conclusão

Apesar do sentimento de anonimato de quem comete tais atos ilícitos na Internet, atualmente é bem difícil, para usuários comuns, navegar de forma a não deixar rastros por onde se passa. A vítima de uma ofensa pela Internet tem meios para buscar a devida reparação, e não deve se esquivar de procurar este caminho, ajudando a desencorajar o autor do fato a cometer tal ilícito novamente.

Notas:

[1] Fonte: http://www.cartorio15.com.br/ata-notarial/

[2] Fonte: http://www.sextooficiorj.com.br/tabela-de-custas

[3] Fonte: https://www.26notas.com.br/servicos/ata-notarial

[4] Fonte: http://www.cartoriojaguarao.com.br/tabela-de-precos

[5] Fonte: http://www.safernet.org.br/site/prevencao/orientacao/delegacias

14 Comentários

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Como proceder ao ser vítima de uma ofensa pela Internet?

Você lê 10 vezes a suposta ofensa, sempre se perguntando se de fato te causa algum dano, ou é somente uma birra.
Se toda briguinha de internet for para o judiciário, a nossa justiça, que já é lenta, não fará outra coisa.
Por sorte, tanto no cartório quanto na delegacia já filtrarão as birras infundadas. continuar lendo

Muito obrigado pelo comentário.

É a discricionariedade do ofendido que irá determinar se deve ou não ir a juízo, afinal de contas são ações penais privadas ou pública condicionada à representação.

O meio termo com certeza é o melhor caminho, pois o excesso de judicialização irá levar à justiça cada vez mais lenta, mas o não exercício do direito de ação promoverá a impunidade generalizada pelo que se diz ou faz mediante um dispositivo eletrônico. continuar lendo

Muito bom o artigo!

Acrescento que, no meu entendimento, após o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, nada impede que o ofendido ingresse com uma ação civil ex-delicto requerendo uma indenização adicional por danos morais (pelos prejuízos morais causados diretamente pelo crime cometido) e por danos materiais (para o ressarcimento dos valores gastos com a confecção da ata notarial, por exemplo), caso o valor da reparação determinado pelo juízo criminal (por força do artigo 387, inciso IV, do Código de Processo Penal) seja insuficiente para tal, no entendimento do ofendido.

A título de curiosidade, existe ainda a ferramenta gratuita https://archive.org/web/ que tem validade jurídica, usada em coletas na web. A ferramenta armazena os sites da Internet, com linha do tempo e últimas atualizações. Pode também ser útil nesses casos.

Sucesso! continuar lendo

Muito obrigado pelo comentário.
Suas considerações são bem pertinentes.

Sobre o Web Archive, a única limitação dele é que não faz coleta de páginas privadas, ou seja, aquelas que só permitem acesso mediante usuário e senha ou outra forma de autenticação, como um perfil do Facebook ou outra rede social. Mas se for uma página aberta ao público, como um portal de notícias, um blog, ou algo semelhante, com certeza será uma opção útil. continuar lendo

Parabéns pelo texto, mas infelizmente este tipo de crime ainda consegue seguir impune caso o criminoso seja estrangeiro morando fora do Brasil e se esconda em provedores de outros países, justamente para problematizar a situação, sabendo que dificilmente a justiça brasileira conseguirá fazer algo a respeito e sabendo dos altos custos de um processo em determinados países, além da dificuldade de se conseguir um advogado que entenda tanto do assunto que não seja também feito de bobo por este tipo de criminoso.
Eu mesma passo por esta situação e, apesar de os sites de busca terem representação legal no Brasil, teimam em não acatar a decisão judicial de bloquear os links considerados perniciosos, ainda que a justiça tenha definido multa para o caso de descumprimento.
Ainda há muito o que ser feito em termos de legislação para que a justiça e as Leis possam ultrapassar as barreiras invisíveis existentes entre os países. continuar lendo

Prezado Dr Igor, parabenizo pelo conteúdo.

Meu caro, Ata Notarial, isso é motivo de risos as vezes, pasme, fui num cartório saber sobre custas da referida, tive a surpresa da atendente - "o que é isso, não sabemos o que é, nem como fazer".

Outra, quanto as custas variam por Estado, sempre cobram pela primeira folha, e adicionais pelas demais, alguns inovam, com deslocamento, ou, sem deslocamento, enfim, esta ata tem um custo para o reclamante.
Vou pela máxima, crime x indenização ou, lei da compensação, a que convier para o cliente. continuar lendo

Muito obrigado pelo comentário. continuar lendo

Sr. Paulo Abreu, passei pela mesma situação.
Aconselhada por uma advogada, fui ao cartório fazer a Ata Notarial e o interventor do Cartório, que estava sob investigação, não autorizou que fosse feita a Ata Notarial, por ser conteúdo em língua estrangeira. continuar lendo

Prezada Priscila.

Lamentável, ele não precisa conhecer língua estrangeira, basta transcrever o teor da sua solicitação, ipsis litteris ou ipsis verbis, como queira. continuar lendo